
Feito isso, será mais fácil para o espectador, mesmo sem contato algum com as páginas ilustradas, ser levado pela aventura poeirenta. E uma das razões para isso acontecer está na manutenção de várias características dos tradicionais faroestes. Estão lá belas imagens áridas, trilha sonora no clima, homens sujos, barulho de esporas, tiros e violência, algo que na sequência inicial, inclusive, revelou-se meio pesada, mas foi atenuada mais adiante.
Um homem (Daniel Craig) sem memória chega numa cidade (no melhor estilo "estranho numa terra estranha") e descobre que está sendo procurado pela Justiça. Antes que ele possa ser julgado, porém, um ataque alienígena o faz usar uma misteriosa arma presa em seu pulso. É a deixa para que os inimigos do presente e do passado sejam os heróis do futuro, livrando a terra da ameaça extraterrestre. Achou meio poética a frase? Saiu assim, mas não tem nada de poesia nesta trama.
Nela, o vilão é o milionário (Harrison Ford) que controla os habitantes locais com sua grana e o pulso forte. Ao seu redor existem personagens um pouco caricatos, como os de Sam Rockwell e Paul Dano, que funcionam, mas a mocinha interpretada por Olivia Wilde (a Thirteen do seriado House) é uma das falhas do roteiro. Tudo bem que ela seja misteriosa para o herói, mas nunca despertar a curiosidade dos moradores locais soa muito estranho, até porque tanto na ficção quanto na realidade é impossível não se notar aquele rosto anguloso e o par de olhos límpidos.
O fato é que se você é exigente e analisar friamente a obra, encontrará um monte de detalhes que poderiam ser evitados. O principal é a presença de um bendito cachorro e um menino. Mas os clichês não estão só nessas duas figuras. Eles estão por toda a parte e o interessante é que não comprometem o resultado final. Mérito da edição e do diretor Jon Favreau (Homem de Ferro), que conseguiu impor um bom ritmo, sem dar tempo para que se possa "ruminar" esses detalhes e quando você se dá conta, já está aceitando cada nova licença com mais facilidade que a anterior.
Usando referências de John Wayne, Alien, o 8º Passageiro e Indiana Jones, o humor leve também ajuda a mover a trama para frente. E a certeza que se está diante de uma produção de Steven Spielberg fica evidente, por exemplo, em momentos de boa - e até boba - emoção. Com bons efeitos especiais e som, a possibilidade de se assistir em salas IMAX é algo bem mais atraente do que o desgastado 3D que, felizmente, não abduziu esse longa. Assim, prepare-se para encarar algo diferente e também igual. Ou seja, um legítimo "faroeste alienígena".
Dirigido por Ridley Scott, filme estréia nesta sexta-feira (28).
Elenco do suspense também traz Russell Crowe.
O sucesso de "007 - Quantum of Solace" confirma: James Bond continua em alta. De olho no filão, o diretor Ridley Scott (de sucessos como "Blade Runner" e "Gladiador") transforma Leonardo DiCaprio em uma espécie de James Bond globalizado em seu novo filme, "Rede de mentiras", que chega aos cinemas brasileiros nesta sexta-feira (28)."Body of lies", no original, traz Di Caprio na pele de Roger Ferris, um agente secreto que cruza países como quem vai à esquina, fala árabe fluentemente e sabe tudo sobre política do Oriente Médio. Como se não bastasse, ele sobrevive a tiroteios, bombas, perseguições e tortura e ainda arranja tempo para se apaixonar. Bem ao estilo Bond de ser, só que nos dias de hoje, num mundo pós 11 de setembro.
O roteiro de William Monahan (que ganhou um Oscar pelo texto de "Os infiltrados"), baseado em romance de David Ignatius, leva "Rede de mentiras" para além das cenas de ação de prender a respiração, acrescentando cérebro e política internacional ao caldeirão de Ridley Scott.
Terrorista na mira
Na trama, Ferris tenta desmascarar o mentor de um grupo terrorista do Oriente Médio simulando a existência de uma organização terrorista rival. Para que seu plano funcione, ele tem que criar um líder fictício e plantar evidências convincentes por aí, o que lhe custa muitas situações de risco e alguns ferimentos.
Em sua aventura, o protagonista trabalha em contato constante com Ed Hoffman (interpretado por Russell Crowe, que engordou mais de 20 quilos para as filmagens), seu chefe na CIA, baseado em Washington. Hoffman, que acredita numa conspiração do Oriente contra o Ocidente, é o elemento da trama que liga os pontos entre o absurdo e o perfeitamente possível, tornando o longa ainda mais envolvente.
Mas, como em todo filme de espiões, o público deve deixar seu senso de realidade do lado de fora da sala de cinema e desligar seu detector de absurdos. Feito isso, "Rede de mentiras" é diversão garantida.
Longa-metragem entra em cartaz nesta sexta-feira (28).
Dirigido por Paulo Caldas, filme é co-produção de Brasil e Alemanha.
O título do premiado "Deserto Feliz", que estréia nesta sexta-feira (28) em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, registra uma dupla ironia. A história do filme não tem nada de feliz e o deserto é mais metafórico do que real - está no interior dos personagens. Dirigido por Paulo Caldas (co-diretor de "Baile Perfumado", de 1997, ao lado de Lírio Ferreira), o longa é uma co-produção entre Brasil e Alemanha e estreou no Festival de Berlim de 2007.
Desde então, acumulou prêmios, entre eles, diretor, direção de arte, fotografia, música e o da crítica no Festival de Gramado do ano passado. Já no Festival de Guadalajara, recebeu o prêmio de direção.
Além da estreante Nash Laila (premiada no Festival de Cinema Brasileiro de Paris e no Festival de Cine Luso-Brasileiro), o elenco inclui João Miguel ("Estômago"), Hermila Guedes ("O céu de Suely") e Zezé Motta ("Xica da Silva").
Diretor
Os filmes de Caldas - que também assina "O rap do Pequeno Príncipe contra as almas sebosas" (2000), co-dirigido por Marcelo Luna - sempre romperam com uma linha tênue entre a ficção e o documental. "Deserto Feliz" não é diferente. O ponto de partida da história veio de uma notícia de jornal que contava sobre um homem preso depois de caçar um tatu - bicho protegido pela legislação ambiental - para alimentar a família.Mais tarde, no sertão nordestino, enquanto pesquisava para o roteiro, Caldas percebeu que a questão do turismo sexual era algo ainda mais forte naquela região e essa se tornou a espinha dorsal de "Deserto Feliz".
Jéssica (Nash Laila) tem 14 anos e seu padrasto ganha a vida com o tráfico de animais. Mais tarde, quando ele a violenta, a garota acaba fugindo para Recife, onde se torna prostituta. O que a levará a conhecer o alemão Mark (Peter Ketnath, de "Cinema, Aspirinas e Urubus"), que a leva para a Alemanha.
Na Europa, mesmo longe de seus problemas originais, Jéssica enfrenta um forte choque sociocultural. A garota está sempre melancólica numa Alemanha cinzenta - longe do colorido e do calor do nordeste brasileiro. Ela não consegue encontrar seu lugar neste mundo novo que, de algum modo, também lhe é hostil.
"Deserto Feliz" poderia ser um conto de fadas - menina sofredora conhece príncipe que a leva para a Alemanha. Mas o diretor Paulo Caldas opta pelo realismo, levantando uma série de questões pertinentes ao Brasil contemporâneo.
(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)
* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb
Longa-metragem é baseado em livro sobre a história real de carcereiro.
“Mandela – uma história de liberdade” surpreende o espectador que espera apenas a história do líder sul-africano que ficou preso durante quase três décadas por se opor violentamente ao regime do apartheid em seu país. “Goodbye Bafana”, título original, mostra isso, é claro, mas vai além.
Sem cair na pieguice, o longa, que estréia nesta sexta-feira (10), conta como o guia de uma nação dividida e oprimida é construído, além de mostrar resumidamente a situação social de um país em que, apesar de maioria, os negros eram tratados como inferiores até o fim do século 20.
Pode-se dizer que há endeusamento excessivo do advogado Nelson Mandela, ex-chefe de uma organização rebelde ao governo que, na década de 1990, se transformou no primeiro presidente eleito pela África do Sul unida. Mas, se há exagero, isso ocorre principalmente porque o filme é narrado sob a perspectiva de um fã de Mandela.
História real
“... Bafana” se baseia em um livro sobre a história real do carcereiro James Gregory, interpretado no filme com equilíbrio por Joseph Fiennes (de “Shakespeare apaixonado”), que tomou conta do futuro Nobel da Paz por quase toda a época em que esteve preso. Gregory chega à prisão onde Mandela está confinado acreditando que ele deveria ter sido enforcado quando capturado e se transforma em um admirador incondicional do prisioneiro.
Dennis Haysbert (que faz o presidente David Palmer na série “24 horas”) se sai bem com sua voz gravíssima no papel do homem que, mesmo atrás das grades, nunca perde a força, o poder nem a elegância. Talvez incomode os mais puristas a caracterização, já no fim do filme, de um Mandela idoso, mas sem rugas, apenas com cabelos esbranquiçados. Porém, o incômodo passa rápido.
Diálogos em xhosa
A direção do dinamarquês Bille August (de “A casa dos espíritos”) é essencial para tirar a pasteurização do filme e não resvalar na mediocridade. Apesar do tema do preconceito racial já ter sido visitado por diversos filmes, ele acrescenta detalhes que enriquecem a obra, como diálogos em xhosa, uma das línguas faladas na África do Sul.
E, apesar de recursos batidos para “justificar” a amizade entre Mandela e Gregory, como o amigo de infância negro de infância do carcereiro, August não exagera em cenas que tinham tudo para serem forçosamente lacrimosas, como o encontro da família Mandela.
Paralelo histórico
Outro ponto interessante em “... Bafana” é enxergar paralelos históricos com a política do mundo de hoje. Para justificar o apartheid, a mulher de Gregory (Diane Kruger) argumenta que o país vive em guerra, os negros odeiam os brancos, e que a divisão racial sul-africana é uma decisão de Deus, não devendo ser discutida. Qualquer semelhança com os argumentos apresentados pelos governantes de certo país na América do Norte para invadir nações islâmicas não podem ser coincidência.
VEJA O TRAILER(LEGENDADO):Drama de Bille August, com Dennis Haysbert e Joseph Fiennes. A história de um guarda branco e racista na África do Sul. Sua vida foi alterada depois de guardar anos a cela de Nelson Mandela.
Viggo Mortensen estrela longa, dirigido pelo brasileiro Vicente Amorim.
Inicialmente, "Um homem bom" ("Good", no original), que estréia nesta quinta-feira (8) no Festival do Rio, parece um filme de época comum. Mas, aos poucos, o longa-metragem revela um olhar diferenciado sobre o nazismo, tão polêmico quanto corajoso.
Estrelada com brilho por Viggo Mortensen e dirigida pelo brasileiro Vicente Amorim, a produção britânica leva à tela uma discussão profunda (sobre como desejos individuais podem refletir na coletividade), sem no entanto cair em ritmo desacelerado ou afetado por academicismos.
Com uma atuação contida, mas que se faz presente em cada fotograma, Mortensen interpreta John Halder, um intelectual alemão dos anos 30. Ele é um homem decente que se divide entre as demandas familiares - uma esposa neurótica, uma mãe doente e dois filhos pequenos - e a literatura.
Mas depois que lança um livro sobre a eutanásia, em que evoca determinados valores humanos, Halder cai nas graças de figuras políticas da época e é elevado a queridinho do governo nazista. Seja por medo ou por vaidade, o protagonista escolhe o caminho da euforia nazista, que aqui, possivelmente pela primeira vez no cinema, é tratada de forma humana.A direção correta de Amorim não acrescenta muito em termos formais ao roteiro, mas conduz com elegância a trama, que propõe uma releitura da História (com "H" maiúsculo) a partir da perspectiva da história de um homem comum.
A atuação de Mortensen mereceria uma indicação ao Oscar, mas, certamente, a comunidade judaica da Academia não tem motivos para ver "Um homem bom" com bons olhos. É uma pena.
FESTIVAL DO RIO
'Um homem bom', de Vicente Amorim
Quarta (8): Odeon, 22h
Quinta (9): Espaço de cinema 2, 16h45 e 21h15
Filme de Walter Salles e Daniela Thomas estréia nesta sexta-feira (5).
Trama traz mãe que cria quatro filhos sozinha, entre os sonhos e a pobreza.
Depois de ser premiado no Festival de Cannes deste ano, o filme brasileiro “Linha de passe”, dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas, chega aos cinemas do país nesta sexta-feira (5).
Na filmografia de Walter Salles, as viagens sempre tiveram lugar cativo. Em filmes como “Central do Brasil”, “Diários de motocicleta” e “Terra estrangeira” (em que começou sua parceria com Daniela Thomas), os personagens mudavam à medida que avançavam na estrada.
Já no novo longa-metragem, Salles mantém os pés fincados no chão, e a viagem dos personagens é interna, mas não por isso menor. Com belíssimas atuações, o filme traz uma visão sensível da vida na periferia de São Paulo e revela a angustiante convivência entre pobreza e sonhos dentro de uma mesma casa.
Uma família, muitos sonhos
A trama é centrada em Cleuza (interpretada por Sandra Corveloni, ganhadora da Palma de Ouro de melhor atriz), uma empregada doméstica que cria sozinha seus quatro filhos e carrega mais um na barriga.
“Eu sou pai e mãe de vocês”, diz Cleuza aos garotos, que buscam formas de melhorar a vida da família, seja por meios do bem ou do mal. A sensibilidade dos diretores está justamente na recusa em retratar os cinco personagens como vítimas ou como seres perfeitos.
Dario, vivido por Vinícius de Oliveira, que protagonizou “Central do Brasil” há dez anos, sonha ser jogador de futebol e esbanja talento no campo. Porém, ao completar 18 anos, o garoto vê suas chances se afastarem.
Já Denis (João Baldasserini) é motoboy; Dinho (José Geraldo Rodrigues) é evangélico e trabalha como frentista em um posto de gasolina; e o pequeno Reginaldo (Kaique Jesus Santos) deixa a escola de lado para vasculhar a cidade atrás do pai desconhecido.
Tanto os meninos quanto a mãe são movidos pela vontade de mudar de vida, mas por mais que queiram, sentem-se impotentes diante de condições sociais que os mantém onde estão, invisíveis aos olhos dos ricos.
A beleza do filme está em mostrar que, apesar de tudo, vemos na tela uma família feliz, onde o amor e a esperança brilham mais forte que a pobreza. O efeito é imediato: um nó na garganta, que permanece ao fim da sessão.
Comédia "Zohan - O agente bom de corte" estréia nesta sexta-feira (15).
Além de atuar, Sandler assina roteiro com dupla que já escreveu para séries e filmes.
Se o espectador pudesse tirar todas as muitas piadas bobas de cunho sexual e escatológicas e deixar apenas as que abordam sem dó nem piedade a relação entre judeus e muçulmanos e a política americana, "Zohan – O agente bom de corte" seria uma comédia memorável. O problema é que, enquanto as primeiras abundam – sem trocadilho - as segundas são raras como água no deserto.
O longa, que estréia nesta sexta-feira (15), mostra a história de Zohan Dvir (Adam Sandler), um agente super-especial do exército israelense, que sempre é chamado para prender terroristas árabes. Entretanto, ele acha que essa guerra não tem sentido e quer mesmo é ser cabeleireiro. Um personagem mais que exagerado, que adora os extremos, perfeito para Sandler – que assina também o roteiro, junto com Robert Smigel e Judd Apatow, que já fizeram de "O virgem de 40 anos" à série "Saturday Night Live".
Claro que os pais de Zohan não querem ver seu filho – grosseiro, bruto, sexista – fazendo coisas de "gayzim", como dizem. O super-agente, porém, não larga tão facilmente o sonho de empunhar tesoura e secador. Escalado para capturar o perigoso Fantasma (John Turturro, que depois de ser russo, latino, italiano, é árabe agora), ele simula a própria morte e parte para os EUA, "para realizar o seu sonho".
Politicamente incorreto
Chegando à América, Zohan percebe que os salões não vão lhe dar emprego só porque ele tem um corte de cabelo anos 70. Só consegue trabalho, e como faxineiro, em um salão controlado exatamente por uma árabe. Mas, como disse ao sair de Israel, ele queria acabar com essas diferenças.
E é exatamente neste ponto que o filme acerta. Ao fazer humor politicamente incorreto, exagerando os estereótipos dos dois grupos. Mostrando que em vez de serem antagonistas, israelenses e árabes são parecidos até a última pasta de grão-de-bico (homus).
Mas os americanos também não se salvam da "zoada" de Zohan. Há o empresário bem-sucedido que só quer saber da sua namorada loura e de proporções perfeitas e o grupo de "red necks", americanos preconceituosos e de extrema-direita, que fica eternamente grato ao ser contratado para judiar de israelenses e árabes, ao mesmo tempo.
O longa conta ainda com um impagável Rob Schneider no papel de um árabe que teve a cabra "roubada" por Zohan e jura vingança. E de Nick Swardson fazendo um filhinho da mamãe – que está se tornando sua marca registrada. Além das participações especiais de Chris Rock, da cantora Mariah Carey (!) e do ex-tenista John McEnroe (!!).
"Zohan", porém, é (de) Adam Sandler. Como Ben Stiller (menos) e Steve Carrel (mais), Sandler sabe fazer o melhor besteirol da atualidade. E, dessa vez, com um mínimo de conteúdo, para mostrar que devemos rir até dos nossos piores problemas.
Com orçamento de R$ 1,8 milhão, Mojica investe pesado em sangue e tortura.
Filme encerra trilogia do personagem Zé do Caixão, iniciada na década de 60.
Após 40 anos de hiato, o personagem mais célebre do terror nacional está de volta. Zé do Caixão, interpretado por José Mojica Marins, retorna aos cinemas nesta sexta-feira, 08/08/08, data escolhida a dedo –e unhas– pelo mestre do pânico. Volta em grande estilo, importante ressaltar, com orçamento de produção de R$ 1,8 milhão disponibilizado para que Mojica pudesse criar e comandar de acordo com suas vontades. A verba não é alta, mas para quem era acostumado a trabalhar apenas com o negativo e a colaboração do elenco, é dinheiro de superprodução.
Figuras influentes do atual cinema brasileiro se mobilizaram, dispostas a tornar realidade o maior sonho de Mojica: encerrar –dignamente– a trilogia iniciada nos anos 60 com "À meia-noite levarei sua alma" (1964) e "Esta noite encarnarei no teu cadáver" (1967). Juntaram-se Paulo Sacramento (diretor de "O prisioneiro da grade de ferro" e montador de filmes como "Amarelo manga" e "Chega de saudade"), Cássio Amarante (diretor de arte de "O ano em que meus pais saíram de férias", entre muitos outros), José Roberto Eliezer (diretor de fotografia de "O cheiro do ralo", "Se eu fosse você"), André Abujamra na trilha sonora e tantos outros que dedicaram-se a transformar "Encarnação do demônio" na superprodução trash que de fato ele é.
Pode soar contraditório, mas se não fosse trash não seria Zé do Caixão. O estilo que consagrou o gênio do terror foi preservado e atualizado –novas formas de tortura se revezam com trechos dos filmes antigos do cineasta. "Encarnação do demônio" vem sendo comentado por todo canto, ganhou prêmios no Festival Paulínia de Cinema, onde fez sua estréia, e vai para o Festival de Veneza. Mas não espere que o glamour tenha trazido escrúpulos para o protagonista. As cenas de tortura retratadas no filme são de dar pesadelo à noite, em especial aquelas em que mulheres são submetidas, das piores formas jamais imaginadas, a ratos e baratas.
A história começa com a libertação do assassino da cadeia, depois de ele ter cumprido o tempo máximo permitido pela lei brasileira. Já nas ruas, é recebido pelo corcunda Bruno (Rui Rezende), seu fiel serviçal e cúmplice, que prepara tudo para a volta do criminoso.
As instalações –numa favela paulistana– continuam tendo caixões, ossadas e clima macabro. E as intenções de Zé do Caixão seguem as piores possíveis. Como nos filmes anteriores, ele ainda quer encontrar a mulher superior com quem poderá procriar e finalmente ter seu tão sonhado filho perfeito.
Para ver "Encarnação do demônio" e apreciá-lo de alguma forma, é preciso deixar alguns conceitos do lado de fora do cinema. Não espere, por exemplo, coerência nem um roteiro sem buracos. Não ache que haverá efeitos especiais ou computação gráfica. Não acredite que você verá shows de interpretação.
Sem tais expectativas, a experiência de ser assombrado por Mojica pode ser muito mais rica. Se o roteiro tem falhas, também tem o mérito de humanizar o bandido sanguinário dos anos 60, tranformando-o em um homem perturbado pelos fantasmas das próprias vítimas. Se não há efeitos de última geração, causa muito mais impacto saber que a maioria das seqüências aterrorizantes foram de fato realizadas. E se o filme conta com atores jovens e inexperientes, também tem figuras magistrais, como Milhem Cortaz, Jece Valadão, José Celso Martinez e o próprio Mojica, que com seu estilo caricato transformou Zé do Caixão em um clássico.
Roteiro é adaptado de um conto de Will Weaver. Inge é uma jovem alemã, que chega a Minnesota para um casamento arranjado.
Um romance emotivo, que tem como cenário a cidade de Minnesota em 1920, "O Verdadeiro Amor" é o trabalho assinado pelo diretor estreante em cinema Ali Selim, que entra em cartaz apenas em São Paulo.
Premiado diretor de comerciais de televisão há 20 anos, Selim assina também o roteiro, adaptado de um conto de Will Weaver, criando uma heroína independente e sedutora, Inge Ottenberg (Elizabeth Reaser, de "A passagem").
Logo depois da 1ª Guerra Mundial, Inge é uma jovem alemã, que chega à rural Minnesota para um casamento arranjado por carta, com outro imigrante, o jovem norueguês Olaf (Tim Guinee, de "Homem de Ferro"). Ela mal fala inglês.
A única frase que conseguiu aprender inteira de seu manual é: "eu poderia comer um boi". Na bagagem modesta da moça, destaca-se o enorme gramofone, que parece de pouco uso num ambiente de agricultores.
O gramofone é o símbolo da diferença de Inge. Basta olhar para esta moça de olhar direto, sorriso franco e maneiras desinibidas para saber que ela tem alguma educação formal e veio da cidade. Logo se saberá também que ela foi membro do Partido Socialista em sua terra.
Nem que ela não fosse nada disso, teria problemas neste novo mundo apenas por causa de sua nacionalidade. Naquele momento nos EUA, havia uma caça às bruxas contra os alemães, que eram considerados potencialmente perigosos, suspeitos de espionagem ou prostituição.
Além de alemã, Inge não tem papéis. Assim, o esperado casamento com Olaf não acontece. Porta-voz da moral e dos bons costumes, o reverendo Sorrensen (John Heard) determina que a moça fique hospedada na casa do melhor amigo do noivo, Frandsen (Alan Cumming, de "X-Men"), casado com Brownie (Alex Kingston) e pai de uma porção de filhos pequenos.
Não demora muito e Inge se cansa da superlotação do quarto das crianças do casal. Impaciente com os papéis que demoram a chegar da Alemanha para seu casamento, decide o problema à sua maneira: muda-se para o andar de cima da casa do noivo, chegando de madrugada, sem avisar ninguém. Nem mesmo ele. Uma surpresa que contribui para o surgimento de uma grande paixão.
Com um andamento desdobrado em três tempos, a história corre neste plano intimista do jovem casal, cuja vida em comum sem casamento desencadeia uma reação moralista da comunidade. Outro foco está no plano social, com a virtual falência de vários agricultores, com propriedades penhoradas junto ao banqueiro Harmon (Ned Beatty, de "Superman 2"). Um outro tempo narrativo passa-se em 1968, quando o neto de Inge e Olaf, Lars (Patrick Heusinger), recebe uma oferta milionária para vender a velha fazenda dos avós -- e aí deve decidir se vende ou não essa rica história de família com toda a sua cota de lembranças.
''O verdadeiro amor'' estréia nesta sexta-feira nos cinemas brasileiros
Por Neusa Barbosa, do Cineweb
Dé, o Romeu da vez, vive na favela do Cantagalo, enquanto Nina, a Julieta, mora de frente para o mar de Ipanema. Em vez de famílias que se odeiam, a situação social e geográfica é que separam os seus protagonistas.
Interpretações boas
Como recompensa para quem for assisti-lo, o longa tem uma fotografia caprichada, com tons quentes, e uma seqüência de futebol, logo no comecinho, de tirar o fôlego. Além de boas ou corretas atuações de Rocco Pitanga (Carlão), de Thiago Martins (Dé) e de Vitória Frate (Nina), que dá vontade de levar para casa.
Erro no tom
Outro ponto complicado é um certo erro no tom ao tentar retratar a favela, sempre associada à violência, seja pelo pai de Nina (vivido com exagero por Paulo César Grande), pela mãe de Dé (Cyria Coentro, bem), seja pelos próprios moradores, como Carlão (Pitanga). Enquanto isso, a Europa e o Nordeste aparecem como os destinos bucólicos e seguros para quem quer fugir. Na tentativa de mostrar o amor que pode existir entre os moradores do "asfalto" e os do "morro", Silveira fez um filme previsível e até preconceituoso. Quando sobem os créditos, o ator Thiago Martins, até hoje morador da favela do Vidigal, ganha a oportunidade de dar um depoimento pessoal sobre os problemas sociais do Rio. Nenhum outro ator pôde se manifestar. O que demonstra que ainda não foi dessa vez que as partes da cidade vão ser coladas.
Ao contrário desses dois, “Space chimps” parece apostar na premissa de que criança engole qualquer coisa que aparece na telona, desde que seja colorido e barulhento o suficiente. A verdade é que o filme pode até distrair os pequenos, mas “paga mico” quando o assunto é realmente divertir a garotada (ou seus pais).
